sábado, 8 de setembro de 2012

A GENTE SE ACOSTUMA - Marina Colasanti

A GENTE SE ACOSTUMA

Marina Colasanti




Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

The Newsroom

Da minha loucura por filmes, todo mundo sabe! :D



Ando achando as produções cinematográficas tão mornas ultimamente que, cada vez mais, foco a minha atenção em séries. Vi tantas séries ultimamente que nem dá pra contar assim nesse intervalinho entre uma correção de prova e outra - vida de fessor, né?! - falando nisso, acho que sou uma péssima professora... é cada resultado que olha! Credo. E claro que a culpa deve ser dessa que vos escreve.
Mas voltando ao ponto inicial desse meu retorno ao "bloguinho abandonado", escolhi contar da surpresa boa que foi pra mim The Newsroom. Ela que passou despercebida por mim até semana passada, me chamou atenção quando li alguma coisa interessante a respeito - sabe-se-lá-onde. 

Lá fui eu baixar o piloto e... Adorei! 
The Newsroom é uma série dramática que se encarrega de mostrar as etapas que envolvem a produção de um telejornal diário. Jeff Daniels é Will, o personagem central da série e o âncora das notícias, aquele que precisa, juntamente com sua equipe, colocar no ar todos os dias os acontecimentos do mundo de maneira política e opinativa. Com dez episódios produzidos para sua primeira temporada, The Newsroom só precisou dos primeiros 20 minutos pra me conquistar irremediavelmente. 
Como não gostar da verborragia de Will dizendo que a America (que claro, pra eles, se resume aos Estados Unidos) não é mais o lugar dos sonhos, mas que pode voltar a ser...
Gosto do jeito como os dramas são desenvolvidos e de como cada personagem consegue cativar algum tipo de sentimento em mim. Adoro a pessoa que Will vai se tornando no decorrer dos episódios.
Ainda não terminei a primeira temporada - parei no 3° episódio -, mas posso dizer que essa já é uma das minhas favoritas - e ela foi renovada (#todasdança \o/). 

Recomendo.


Nota 9,0


Jor